Hoje celebramos a Solenidade da Ascensão do Senhor. Esta celebração, enquanto festa litúrgica específica, remonta ao século IV. A data litúrgica é tradicionalmente assinalada na quinta-feira da sexta semana da Páscoa, ou seja, quarenta dias após a Ressurreição. Contudo, em vários países, como Portugal, é transferida para o domingo seguinte, para favorecer a participação do povo de Deus.
A Ascensão é um dos mistérios centrais da nossa fé: Jesus, ressuscitado dos mortos, sobe aos Céus e senta-Se à direita do Pai, em corpo e alma, glorificado. Como nos relata São Marcos: “O Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus” (Mc 16,19).
Contudo, esta não é uma celebração de despedida, mas de envio. É o momento de transição entre a missão de Jesus e a missão da Igreja. Não celebramos a ausência de Cristo, mas a Sua presença de um modo novo: glorificado, mas próximo, através do Espírito Santo. Gostaria de refletir convosco sobre uma das palavras mais fortes que Jesus dirige aos Apóstolos antes de subir ao Céu: “Vós sois testemunhas disto.” (Lc 24,48)
Ser testemunha é mais do que recordar: é comprometer-se. O Evangelho deste domingo mostranos o percurso de vida de Jesus e termina com este desafio claro: o de sermos continuadores da Sua missão. Mas surge inevitavelmente uma pergunta: Testemunhas de quê?
À primeira vista, parece simples responder. Mas este convite exige de nós uma resposta interior profunda — não apenas dita, mas vivida — que nos configure cada vez mais à pessoa de Jesus Cristo.
Somos testemunhas de:
- Um Deus que se fez homem e deu a vida por nós;
- Um amor até ao fim — incondicional, concreto e redentor;
- Uma vitória sobre a morte e o pecado, para que o bem tenha a última palavra;
- Uma oferta de perdão e salvação acessível a todos.
Este testemunho não é teoria nem filosofia. É fruto de um encontro real e transformador com o Ressuscitado. Testemunhar é mais do que falar — é viver de tal forma que, ao olhar para nós, os outros vejam Jesus.
Vivemos num mundo saturado de palavras e opiniões, muitas vezes vazias, confusas ou até tóxicas. Há uma sede imensa de autenticidade, de coerência, de verdade encarnada. Mais do que discursos brilhantes, o mundo precisa de testemunhas verdadeiras — pessoas cujas ações, escolhas, palavras e sentimentos revelam a fé que professam.
Para esta missão, Jesus não nos deixa sós: promete-nos o Espírito Santo, a força de Deus em nós. Ao subir ao Céu, deixa-nos a responsabilidade de continuar a Sua obra — e a força necessária para o fazer. É o Espírito que nos capacita para testemunhar com coragem e fidelidade.
Além disso, a Ascensão projetanos para a esperança. É a promessa da nossa glorificação. Tal como Cristo subiu ao Céu, também nós somos chamados à eternidade. A vida cristã é uma peregrinação com meta definida: a comunhão plena com Deus. Por isso, mesmo nas tribulações, vivamos com esperança. Jesus reina — e reina também sobre a nossa história, conduzindo-a para o bem.
Em suma, a Ascensão não é apenas uma recordação: é um apelo. Jesus confiou uma missão aos Apóstolos e confia-a, hoje, a cada um de nós. Ser testemunha de Cristo é viver no amor, na verdade, na justiça, na compaixão e na misericórdia. É ser luz no meio das trevas, esperança onde há desânimo, e paz onde reina o conflito.
Que sejamos, neste mundo, sinais vivos da presença de Cristo.
Votos de uma excelente semana, com fé renovada e coração ardente.
Pe. Andrew Prince
